Projeto da Fiocruz em Moçambique é o mais longo e que mais consumiu recursos brasileiros na África
O mais emblemático projeto de cooperação brasileiro na África
completa dez anos em novembro e vive hoje seu momento mais decisivo. É
uma fábrica pública de medicamentos contra a Aids, instalada pela
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Moçambique. Em agosto, ela finalmente
realizou seu objetivo: produziu pela primeira vez um remédio genérico
que faz parte do coquetel anti-HIV, a lamivudina. Em outubro, repetiu a
dose com um segundo componente do coquetel, a nevirapina. Toda a
operação foi feita por moçambicanos, com a supervisão da Fiocruz.
Veja também:
Especial: Dez anos do Brasil na África
Projetos do Brasil ajudam países africanos, mas enfrentam dificuldades
Infográfico: Brasil aumenta presença na África nos últimos dez anos
TV Estadão: Vale investe 60% do PIB anual de Moçambique
A Sociedade Moçambicana de Medicamentos (SMM), o nome oficial da
fábrica, é a única unidade pública de produção de medicamentos contra a
Aids na África, o continente mais afetado pelo vírus e onde o acesso ao
tratamento é escasso. No caso de Moçambique, a SMM é também a primeira
indústria farmacêutica. Todos os medicamentos consumidos no país são
importados.
Agora, os medicamentos precisam obter um selo de qualidade do órgão
regulador em Moçambique. Enquanto isso, a fábrica deve começar a embalar
um antibiótico e um medicamentos contra o HIV produzidos pela Fiocruz
no Brasil e doados para que as vendas já possam ser iniciadas. No
próximo ano, a fábrica deve tentar obter certificação da Organização
Mundial da Saúde. A organização Médicos Sem Fronteira (MSF), que atua na
área do HIV no país, diz que "ainda é cedo para tecer comentários
profundos sobre como a fábrica irá beneficiar as pessoas que vivem com
HIV em Moçambique".
Nenhum outro projeto de cooperação do Brasil na África está em curso
há tanto tempo ou consumiu um volume tão alto de recursos. A Fiocruz
estima que ele terá custado ao País cerca de US$ 20 milhões. "Demorou
muito? Eu olho para trás e digo: ninguém tem noção do quanto a gente
trabalhou", afirma a coordenadora do projeto, Lícia de Oliveira, da
Fiocruz.
"Nem Moçambique nem o Brasil sabíamos onde estávamos nos metendo",
diz ela. O País não tinha experiência na realização de um projeto de
cooperação de tão grande porte no exterior. Além disso, a operação de
uma indústria farmacêutica é um processo de alta complexidade. Toda a
tecnologia de produção foi transferida para Moçambique, que vai operar a
fábrica sem a intervenção do Brasil. A expectativa é que ao final de
cinco anos a venda dos remédios custeie as operações e que a produção
atenda a todo o mercado da parte sul da África.
"A fábrica é a primeira aqui em Moçambique, até em África. Temos
muita expectativa e muita responsabilidade. Depois de vermos essa
fábrica cheia, com movimento, nós vamos ficar já descansados, felizes da
vida. Porque realmente é difícil, é muito difícil para chegar nessa
fase", diz Feniosse Macuacua, operador da fábrica que atuou nas
primeiras produções de medicamentos.
Aids. A incidência de HIV em Moçambique é uma das
maiores do mundo - 13% das mulheres e 9% dos homens, totalizando 2,4
milhões de pessoas infectadas. No Brasil, calcula-se que 630 mil pessoas
são soropositivas, menos de 1% da população.
É a comunidade internacional que custeia 100% do coquetel anti-Aids, a
maioria deles genéricos comprados na Índia a preço baixo. "Até hoje me
surpreendo com as dificuldades que esse país enfrenta quanto ao
financiamento para a área da saúde, que depende de doadores
internacionais", diz a enfermeira brasileira Kelly Cavalete, que
trabalha no MSF no país.
A fábrica prevê a transferência de tecnologia e conhecimento para a
produção de 21 medicamentos. Além dos usados para tratar a infecção por
HIV, há remédios para atenção básica – entre julho e setembro, foram
produzidos os primeiros, contra hipertensão. A capacidade instalada é de
400 milhões de comprimidos por ano.
A estrutura da fábrica é pequena, mas de ponta. Em um corredor vedado
do exterior, com luz artificial, ar condicionado e protegido por portas
de segurança codificadas, ficam as salas de produção e embalagem. Os
equipamentos são iguais aos usados pela Fiocruz no Brasil. Segundo a
fundação, é que há de melhor no mundo. São duas linhas de produção: uma
específica para componentes do coquetel anti-HIV e outra para
medicamentos em geral, além de uma unidade de soros.
História. Assinado em novembro de 2003 durante a
primeira viagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à África, o
projeto da fábrica se tornou um símbolo das dificuldades do Brasil em
realizar projetos de cooperação de grande porte. A primeira delas foi a
concorrência com a China. Apenas cinco meses depois da assinatura, um
grupo chinês começou a negociar com o governo moçambicano a construção
de uma fábrica de antirretrovirais privada. Prevaleceu o projeto do
Brasil.
De 2003 a 2007, as características do projeto foram discutidas e
foi realizado um estudo de viabilidade. Depois, haviam dúvidas sobre
como financiar a fábrica. Em 2008, o governo brasileiro encaminhou para o
Congresso um projeto de lei para a doação de R$ 13,6 milhões. Um ano e
dois meses depois, ele foi aprovado. "Nunca na minha vida eu tinha
lidado tanto com advogados e procuradores. Virei figurinha fácil da
Câmara dos deputados", lembra a doutora Lícia.
O parecer favorável do senador Eduardo Azeredo ao projeto de lei
evidencia a importância da cooperação para o avanço brasileiro no
continente. "A eventualidade de apropriação do projeto da fábrica de
antirretrovirais por terceiros países acarretaria a perda de valioso
instrumento de cooperação e de afirmação dos interesses brasileiros na
África", escreveu Azeredo. A Vale, que já estava operando em Moçambique,
doou outros UR$ 4,5 milhões. De 2009 a 2012, a infraestrutura física da
fábrica foi preparada, os equipamentos adquiridos e os funcionários
treinados no Brasil.
A fábrica é citada em discursos de governantes brasileiros como
exemplo da ajuda que o Brasil pode dar à África e o diferencial da
cooperação brasileira em relação a outros países. Enquanto a Europa e os
Estados Unidos doam medicamentos, o Brasil doaria toda a tecnologia de
produção. Apesar da importância dada ao projeto, ele ainda é um
desconhecido em Moçambique. A largada da venda de medicamentos pode
ampliar sua visibilidade.
Antes do início da produção, a comunidade internacional era descrente
que o projeto pudesse dar certo. "Não sei se os medicamentos
moçambicanos vão ser mais baratos que os indianos, se o preço vai ser
competitivo", afirmou em 2010 o então coordenador do MSF em Moçambique,
Alain Kassa. Agora que a produção finalmente começou, o desafio é manter
a fábrica no âmbito público. Indústrias farmacêuticas privadas,
sobretudo indianas, estão interessadas no projeto - visto como uma porta
de entrada para o mercado de medicamentos na África.






0 comentários:
Postar um comentário